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23 de março de 2010

A Tauromaquia é cultura?

A tauromaquia tem-se desenvolvido por milhares de anos, em especial na Espanha. Uma razão disso é que a raça espanhola de touros possui as qualidades especiais necessárias a tal actividade. O suporte financeiro da tauromaquia na Espanha tem sido grandemente destacado nos últimos quinze anos pelo surto de turismo que agora traz cerca de trinta milhões de pessoas anualmente à Espanha. A maioria dos turistas assiste a uma tourada, pois imaginam ser uma típica experiência espanhola. Isto, contudo, está muito longe da verdade. Embora a tourada seja considerada a “fiesta nacional” na Espanha, a maioria dos espanhóis não frequentam touradas e pouco se interessam por elas. Mas, enquanto houver pessoas dispostas a pagar, sempre haverá toureiros dispostos a tourear e criadores dispostos a produzir mais touros. Mas, como a tourada influi nos que assistem a ela?


As reacções à tourada são muito variadas! Alguns consideram-na como repulsiva, ao passo que outros sentem-se fascinados pela mesma. O aficionado, por exemplo, não se aflige de forma alguma com a morte do touro. Está mais interessado na arte, na graça e na perícia do toureiro ao usar a capa e a espada. Mas, ao passo que muito é dito quanto à arte e à graça do toureiro, até mesmo os apologistas modernos das touradas reconhecem a crueldade contra o animal. Na minha opinião, não deixa de ser um acto de crueldade para uma simples exibição. Faz-me lembrar o tempo dos gladiadores, onde se matavam severamente pessoas para o divertimento de outras. Hoje, não temos pessoas nas arenas, mas temos animais indefesos!

A multidão não deseja realmente ver um homem ser morto, mas a possibilidade de morte e o desdém e a evasão perita de danos por parte do homem, emocionam a multidão. A assistência não se interessa em simplesmente ver um homem entrar na arena, matar um animal da maneira mais segura e sair ileso; Não, nada disso, deseja ver a perícia, a graça e a ousadia. Portanto, uma corrida não é realmente uma luta entre um homem e um touro, antes, é entre um homem e ele mesmo; quão perto ousará ele permitir que os chifres cheguem, até que ponto irá a fim de agradar a multidão?

Interessante é que a tourada portuguesa não é tão popular junto ao público pagante como em outros países. Enfim… Só espero que estes hábitos não se espalhem por muito mais culturas.

11 comentários:

Henrique Pontes disse...

Concordo com a sua opinião. A tauromaquia é um exclusivo do povo latino, com uma artéria ancestral bárbara. E com outra veia contraditória, pois que nem o hábito de comer carne de touro têm...
Seja bem-vindo à blogosfera. Captou a minha atenção com os seus 2 logs.

1 Espectador SC disse...

Henrique, obrigado pela visita e espero a sua volta ;)

Abraço!

aminhapele disse...

Não me considero um bárbaro,gosto de animais,e de touros e touradas.
Mesmo os "amigos dos animais" devem reconhecer que só existem touros porque há touradas.
De outro modo,o touro seria um animal extinto e dele teríamos memória nos signos astrológicos.
Nesta,como noutras,cada um tem a sua opinião e,a meu ver,todas são aceitáveis.
Como em tudo,o critério é o do bom senso e o respeito pelos outros.
Cumprimentos.

1 Espectador SC disse...

Aminhapele,

Concordo quando diz que cada um tem a sua opinião. Longe de mim vir aqui neste espaço impor a minha!

Abraço e Boa Noite

Henrique Pontes disse...

Sr. Aminhapele, discordo completamente com o que escreve e , até, acho impensável, na minha realidade, concluir que hoje só existem touros porque existem touradas. Então por essa ordem de ideias qualquer raça que não tivesse interesse directo para o humano, ou que não sofresse pelas mãos do mesmo, ou até completamente inútil, estava extinta e ou não servia para nada. É igualmente ridículo, na minha humilde opinião, achar que é preciso ser "amigo dos animais" para se defender um animal do mero divertimento humano, também conhecido, neste caso, como parte de uma cultura humana. Já os cães na Franca e os galos na china suscitam equivalentes narcisismos humanos. O racismo também existe para com os animais, digo eu... por muito fácil que seja matar uma mosca. Muito respeito tenho por qualquer opinião que seja contrária à minha minha, aprendendo com estas mas não quer dizer que as compreenda.

aminhapele disse...

Peço desculpa pela utilização abusiva deste sítio.
Gostava de deixar mais clara a minha ideia.
Digo que existem touros porque há touradas.Sim.Se não existissem touradas o touro,tal como o lince,o javali,o lobo,a águia,etc. já teriam desaparecido,ou estariam em vias disso.
Teríamos bois de trabalho(cada vez menos) e vacas leiteiras(cada vez mais importadas).
Não sou adepto de espectáculos de morte,com sangue até mais não,com dor e sofrimento até dizer "Basta!".
Suponho que quando fala em racismo e narcisismo está a ir para um plano diferente daquele a que me refiro.
Pela minha parte,nascido e morador numa região que,em tempos,teve grandes ganadarias,teve a 1ª praça de touros do país,foi uma referência no sector dos lacticínios,etc.,continuo na mesma.
Quando era miudo,para vir à grande cidade onde moro(Coimbra),vinha num carro de bois para fazer 17 Kms.
Com respeito,termino.

Henrique Pontes disse...

Sendo este um espaço de debate penso ter o direito de contra-argumento. Se estiver a abusar do mesmo, peço desculpa. Entretanto sr. aminhapele, respeitando a sua ideia, não compreendo o seguinte:

"Se não existissem touradas o touro,tal como o lince,o javali,o lobo,a águia,etc. já teriam desaparecido,ou estariam em vias disso." ------> desculpe mas não entendo a analogia por muito que a leia e releia. Penso o contrário, é pela afirmação do homem que as espécies cada vez mais entram em extinção, ou então não vivo no mesmo planeta que você.

"Não sou adepto de espectáculos de morte,com sangue até mais não,com dor e sofrimento até dizer "Basta!"." ----> De louvar mas não será contraditório para quem defende as touradas?

"Suponho que quando fala em racismo e narcisismo está a ir para um plano diferente daquele a que me refiro." -----> Escrevi ambos em separado e em contextos diferentes. Mas o plano é o mesmo, racismo para com a raça "touro" e narcisismo já que a posição do homem, neste espectáculo, é de clara superioridade e vaidade perante o animal.

Cordialmente, e fora desta cultura, brindo Coimbra.

1 Espectador "Sociedade Civil" disse...

Caros amigos, este é um sitio de debate e pelo que tive a analisar das vossas intervenções, não tenho nada a dizer, porque são respeitosas (não interessando as opiniões divergentes).

Se assim continuar está tudo muito bem e até incentivo a outros, de modo educado, a intervirem também.

Abraço e Boa tarde!

Artur Sequeira Portela disse...

Saiu para os escaparates espanhóis o último livro de Francis Wolff, «50 Razones para Defender las Corridas de Toros». Francis Wolff é um filósofo francês - professor catedrático na Universidade de Paris- que se tem distinguido na reflexão sobre o fenómeno taurino e na sua defesa com base em pressupostos filosóficos.
Nas suas 90 páginas, a obra recolhe, de forma «sintética e acessível», 50 argumentos que contrariam as teses dos alegados «defensores» dos animais. Por exemplo, à questão «as corridas de toiros são tortura?», Wolff responde: «as corridas não têm como objectivo fazer sofrer um animal»; «as corridas não teriam nenhum sentido sem a luta do toiro»; «as corridas não teriam nenhum sentido sem o risco de morte do toureiro»; «se um toiro fosse torturado fugiria»; «falar de tortura não é confundir o homem com o toiro?»
Seguem-se muitas outras respostas a interrogações como o sofrimento do toiro; a morte do toiro; os toiros e o meio ambiente; a corrida como espectáculo; a festa de toiros na cultura e na história; a corrida e os valores humanistas; a festa de toiros é criadora de inestimáveis valores estéticos e, por último, os perigos do animalismo.
Há uma referência a Portugal, quando se pergunta se seria possível não matar o touro em público, como prescreve a lei portuguesa. A morte pública, salienta o filósofo, é um «fim necessário da cerimónia sacrificial» que o toureio constitui. Uma morte «ocultada» seria mais cruel para o animal. «Um toiro que sai vivo do ruedo terá que esperar várias horas antes de ser levado para o matadouro (...) A única beneficiada desta solução seria a hipocrisia: o que não se vê não existe».
«Quem são os bárbaros?», pergunta Francis Wolff em jeito de conclusão. Os aficionados ou «os antitaurinos que, em nome do (suposto) bem-estar dos animais, que consideram superiores aos seres humanos, pretendem matar uma forma de arte e criação arreigada na história e inserida na nossa modernidade»?
«50 Razones para Defender las Corridas de Toros», que merece tradução urgente para português, é um inestimável breviário da filosofia da Festa e um precioso instrumento de defesa contra os que a pretendem agredir.

As grandes causas do nosso tempo são a perseguição aos vícios ou prazeres alheios, o governo do politicamente correcto ou a preparação dos países para as histerias colectivas, normalmente cozinhadas por interesses comerciais ocultos

Henrique Pontes disse...

Será justificação plausível achar que uma opinião de um doutor é válida porque assim o escreve?
Viver num mundo cheio de "Doutores" obriga-nos a olhar para os dois lados da moeda.

Uma opinião formada deve começar com a própria.

Foi invocada literatura portanto. Francês? Filosofo de rituais? Então o sr. Artur leia "Le Grand Bluff Tauromachique " de Andrée Valadier onde nos explica o que toda a gente vê: "Durante o espectáculo o animal recebe vários golpes que acabam por o ferir na cabeça ou nos olhos. Estes animais que são usados mais que uma vez nos espectáculos, necessitam de vários meses para se recuperarem." Isto quando o touro não é morto em arena.

Quando pode vir a morrer: "Os comparsas do matador provocam o touro com capas. Este moribundo, o corpo atravessado pela espada, os músculos destroçados pelos arpões das bandarilhas, sangrando, vacila e acaba por tombar. Logo que este tomba, um punhal (puntilla) é cravado atrás da sua cabeça, a lâmina é torcida e retorcida no interior.".

Também, ainda, o óbvio: "treinam em privado, torturando inúmeros touros."

Por fim para quem não acha um espectáculo sádico: "Os aficionados tentam fazer crer que a pele dos touros é tão espessa que as lâminas de aço das bandarilhas não lhes causam qualquer dor, o que obviamente é falso. Na verdade, a pele pouco espessa dos touros é muito sensível."

Consegue encontrar aqui também 50 (ou mais) argumentos para ser contra as touradas. Espanhola e Portuguesa junto aqui mas o autor separa.

Cordialmente, sem defender o politicamente correcto ou perseguir um vicio alheio, deixo mais uma vez a minha opinião pessoal.

1 Espectador "Sociedade Civil" disse...

Caro Henrique, em nada discordo consigo!